Com o avanço dos mercados de previsão, um novo grande player passou a ganhar espaço dentro do universo do iGaming. Independentemente de esses mercados serem considerados parte do setor de apostas — ou ao menos um segmento adjacente à indústria de gaming —, seu impacto sobre o mercado já é inegável. Neste artigo, executivos do setor de apostas explicam por que decidiram entrar no emergente segmento dos mercados de previsão e como foi esse processo.
Em comentários exclusivos à SiGMA News, o Diretor de Operações da SOFTSWISS Sportsbook, Alexander Kamenetskyi, e o Diretor da Linha de Produtos da N1 Partners, Daniil Korolko, falaram sobre a experiência de levar o modelo de event trading para dentro do contexto do iGaming. A N1 Partners é um programa de afiliados focado em cassinos online e apostas, enquanto a N1 Bet foi a primeira marca a lançar oficialmente os mercados de previsão da SOFTSWISS.
Alcançando o público dos mercados de previsão
Segundo Korolko, antes dos mercados de previsão se tornarem um produto viável para lançamento, a N1 já percebia que havia uma “grande demanda surgindo fora do espaço tradicional das apostas”, mas ainda não sabia exatamente como atender esse público.
Kamenetskyi afirmou que “um segmento legítimo e de alto volume de apostas surgiu completamente fora do ecossistema tradicional das operadoras”, observando que “grande parte da indústria preferiu apenas observar, em vez de agir”.
Para esse público — formado por pessoas interessadas em mercados financeiros e altamente engajadas politicamente —, Korolko acredita que as ofertas existentes simplesmente não geravam identificação.
Kamenetskyi acrescentou que essas pessoas, “que querem tomar posições sobre eventos e informações que acompanham diariamente”, já estavam movimentando dinheiro, mas fora das apostas tradicionais.
Ao comentar como a indústria de iGaming enxergava esse público, Kamenetskyi disse que, durante muito tempo, predominou a narrativa de que os mercados de previsão eram apenas um experimento ligado ao universo cripto ou um “pico temporário impulsionado por ciclos eleitorais”. Segundo ele, o segmento era visto como algo interessante, “mas ainda periférico ao core business” — uma interpretação que, em sua visão, já não faz sentido.
Ele destacou que o volume mensal do setor saltou de US$ 32 milhões em janeiro de 2024 para US$ 12,6 bilhões em janeiro de 2026, “uma mudança de escala que a indústria já não pode mais ignorar”.
Diante desse crescimento acelerado, Kamenetskyi afirmou que os mercados de previsão deixaram de ser apenas uma tendência para se consolidarem como uma categoria de produto completa. E, segundo ele, há um ponto fundamental: “quase nenhum desse volume passou pelas operadoras tradicionais”.
Korolko contou que a própria N1 debateu internamente se esse novo mercado deveria ser tratado como uma tendência passageira ou como uma nova categoria consolidada. Segundo ele, a empresa não pretendia investir recursos operacionais relevantes em algo que atingisse o pico apenas a cada quatro anos.
“Mas aí você observa o que acontece depois do ciclo eleitoral, e a liquidez não desaparece. Ela se diversifica. Eventos macroeconômicos, lançamentos de tecnologia, questões geopolíticas… Em determinado momento, o debate deixou de ser sobre o produto e passou a ser sobre timing. E isso muda completamente a conversa.”
Por que a SOFTSWISS considera o modelo Fixed-Odds o formato ideal para mercados de previsão
Korolko afirmou que o que encerrou definitivamente o debate interno da N1 foi uma combinação de fatores acontecendo ao mesmo tempo.
Segundo ele, os números da Polymarket começaram a ganhar destaque na mídia mainstream, enquanto a SOFTSWISS procurou a N1 informando que estava desenvolvendo uma solução de mercados de previsão voltada ao iGaming e queria que a N1 fosse a primeira marca a lançá-la.
Kamenetskyi explicou que a decisão de adotar o modelo Fixed-Odds, em vez de replicar o funcionamento das plataformas no estilo exchange, ocorreu porque copiar esse sistema simplesmente não seria uma estratégia viável para operadores tradicionais.
Segundo ele, um exchange P2P puro exige a criação e manutenção de liquidez dos dois lados do mercado desde o início, o que implicaria a introdução de processos complexos de KYC e compliance — algo desalinhado com a estrutura operacional atual das operadoras.
Além disso, Kamenetskyi afirmou que isso significaria “abrir mão do controle sobre margem e previsibilidade de receita”.
Ele também destacou que o cenário regulatório para modelos de exchange permanece “extremamente fragmentado e incerto” nos Estados Unidos, Reino Unido e Europa. Para ele, esse nível de exposição regulatória e operacional é “simplesmente injustificável” para a maioria das operadoras estabelecidas.
“O Fixed-Odds não é um meio-termo. É o que torna os mercados de previsão operacionalmente viáveis dentro do modelo B2B de apostas”, afirmou Kamenetskyi.
Na prática, explicou ele, isso significa que o jogador aposta contra a casa, e não contra outro participante. Dessa forma, a operadora mantém controle total sobre as margens e precifica os mercados usando seus próprios modelos internos de risco e trading, administrando a exposição dentro da lógica tradicional das bookmakers.
“Do ponto de vista do jogador, a experiência continua simples. Ele escolhe uma posição clara sobre determinado resultado — sim ou não — sem precisar entender a mecânica complexa do mercado. Já do lado da operadora, tudo se encaixa diretamente nos frameworks existentes de licenciamento e compliance.”
Segundo ele, esse modelo permite que operadores expandam para uma nova categoria sem precisar alterar seu modelo principal de negócios, tornando a operação escalável e comercialmente viável.
O que aconteceu após o lançamento
De acordo com Korolko, um dos pontos que mais chamou atenção desde o lançamento foi o engajamento de jogadores que antes não eram ativos. Segundo ele, usuários estão chegando por meio dos mercados de previsão e, depois, explorando também as apostas tradicionais.
Além disso, ele afirmou que muitos jogadores inativos — que estavam há semanas sem apostar — voltaram quando encontraram mercados relacionados a temas que acompanham ou pelos quais têm interesse.
“Sabíamos que o produto atrairia novos perfis de jogadores. O que não esperávamos era trazer de volta tantos usuários antigos que estavam inativos”, comentou.
Kamenetskyi afirmou que os padrões já são bastante claros e consistentes entre diferentes operadores. “Estamos vendo continuamente três efeitos principais: reativação de jogadores, cross-sell para apostas e uma barreira de entrada significativamente menor para públicos vindos de cassinos online.”
Mercado ainda inicial favorece os primeiros movimentos
No nível da categoria, Kamenetskyi acredita que a discussão já deixou de ser sobre incerteza e passou a ser sobre execução.
Segundo ele, as operadoras já não precisam mais se perguntar se o modelo funciona, mas sim pensar em como capturar esse valor da forma mais eficiente possível.
Korolko afirmou que a janela de vantagem para os first movers não permanecerá aberta por muito tempo. Hoje, segundo ele, o mercado B2B ainda não está saturado e “as operadoras não estão escolhendo entre dez fornecedores diferentes”.
Por outro lado, ele alertou que quem esperar até que a categoria esteja “comprovada além de qualquer dúvida” provavelmente chegará tarde demais — quando concorrentes já estiverem operando e os jogadores já tiverem migrado para outras plataformas.
Kamenetskyi afirmou que a discussão sobre se os mercados de previsão representam ou não uma “categoria real de produto” foi resolvida há bastante tempo. Para ele, a verdadeira questão agora é descobrir quais operadoras conseguirão construir reconhecimento de marca junto a comunidades que nunca tiveram contato com marcas de apostas antes.
Esse tipo de reconhecimento, explicou, não é criado apenas com o lançamento de um produto, mas sim estando presente enquanto esses públicos ainda estão formando seus hábitos e definindo preferências. “Quando a categoria parecer totalmente ‘segura’, a vantagem dos primeiros movimentos já terá desaparecido — e a audiência já terá sido conquistada.”
Regulação e incertezas
No fim das contas, a principal dúvida envolvendo mercados de previsão e a forma como operadores avaliam suas estratégias parece girar em torno da incerteza regulatória.
Algumas regiões e países já vêm avançando na criação de estruturas regulatórias específicas para mercados de previsão, enquanto outros — como Malta — apenas demonstraram interesse em discutir o tema.
Na visão de Kamenetskyi, “a incerteza está na velocidade desse processo”, o que impacta diretamente a rapidez com que a categoria poderá escalar em mercados regulamentados.
Ainda assim, ele ressaltou que isso não compromete a viabilidade do modelo, mas apenas o ritmo de expansão. Segundo ele, operadores que se movimentarem cedo terão a oportunidade de capturar valor enquanto a regulamentação ainda está se ajustando ao novo cenário.
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