A autoridade reguladora de jogos da Dinamarca obteve decisões judiciais para bloquear um número recorde de 334 sites ilegais em 2025, à medida que o modelo de canalização do país enfrenta crescente pressão de operadores não licenciados, sites espelho e conteúdos relacionados a jogos de azar disseminados por plataformas sociais.
Os números alimentam um debate mais amplo nos países nórdicos sobre a eficácia da canalização em um mercado que movimentou € 1,54 bilhão em receita bruta de jogos (GGR) em 2025. A estratégia da Dinamarca tem sido, de modo geral, manter o mercado regulamentado competitivo, ao mesmo tempo em que aplica rigorosas regras de proteção ao consumidor às operadoras licenciadas.
Esse equilíbrio, porém, está sendo colocado à prova. Em 2025, os jogos de azar online responderam por quase três quartos da receita total do setor no país, enquanto os cassinos online se consolidaram como o maior segmento do mercado dinamarquês. A mesma transformação que fortaleceu o ambiente regulamentado também ampliou o espaço para que operadores ilegais alcancem jogadores locais.
Segundo a plataforma de análise do setor Blask, cujo índice mede o interesse relativo dos usuários pelas diferentes categorias do iGaming, os cassinos online representaram cerca de 53,5% do índice de jogos online da Dinamarca ao longo do último ano. As apostas esportivas online apareceram em seguida, com 13%, enquanto os cassinos com crupiês ao vivo responderam por 10,2%.
Os dados também mostram que os cassinos online cresceram 46,35% em relação ao ano anterior, enquanto as apostas esportivas online avançaram 14,25%. Já os mercados de previsão (prediction markets), embora ainda representem apenas 0,2% do índice de jogos online do país, registraram o crescimento anual mais acelerado: 135,3%.
A dimensão desse desafio também se reflete nas ações de fiscalização do regulador. Segundo a autoridade, seu trabalho em 2025 resultou em 334 sites considerados ilegais por decisão da Justiça distrital. Além disso, outros 36 sites removeram ou alteraram suas ofertas de jogos após serem notificados pelo órgão regulador.
Apesar disso, a autoridade ressalta que o aumento no número de sites identificados e bloqueados “não indica necessariamente uma expansão do mercado ilegal de jogos na Dinamarca”, mas sim reflete o “fortalecimento do foco no combate às operações ilegais”.
Modelo de canalização sob pressão
A abordagem adotada pela Dinamarca costuma ser apresentada como mais pragmática, principalmente quando comparada à de países vizinhos, como a Suécia. Essa diferença foi um dos principais temas de um seminário promovido pela associação sueca BOS, no qual a consultoria Nordic Legal apresentou uma comparação entre os dois mercados. Os participantes defenderam que a Suécia passou a adotar uma postura mais baseada em regras rígidas e sanções, enquanto a Dinamarca priorizou o diálogo, a proporcionalidade e a preservação da competitividade das operadoras licenciadas.
A lógica é simples: jogadores tendem a permanecer no mercado regulamentado quando as empresas autorizadas conseguem oferecer produtos, promoções e experiências capazes de competir com plataformas offshore. Isso não significa flexibilizar a regulamentação, mas sim aplicar regras de proteção ao consumidor sem tornar o mercado legal tão pouco atrativo que os usuários passem a buscar alternativas ilegais.
Esse debate também aparece na proposta de reforma da legislação de jogos da Dinamarca. Um projeto de lei prevê a proibição, a partir de 1º de janeiro de 2027, dos modelos de remuneração por participação na receita (revenue share) utilizados por afiliados com base nas perdas dos jogadores ou no volume movimentado, inclusive em contratos já existentes. O Ministério da Tributação afirma que a medida é necessária para fortalecer a proteção ao consumidor. Já os afiliados argumentam que a proposta poderá enfraquecer canais legais de marketing responsáveis por direcionar jogadores às operadoras licenciadas. “Se você impõe restrições demais ao mercado regulamentado, torna impossível que ele consiga competir”, afirmou Anders Dorph, diretor da Autoridade Dinamarquesa de Jogos, em entrevista anterior à SiGMA News.
O novo relatório do regulador retoma exatamente essa discussão sob a ótica da fiscalização. Se a Dinamarca pretende manter suas operadoras licenciadas competitivas, também precisa impedir que sites ilegais sejam facilmente encontrados ou utilizados pelos consumidores. Nesse sentido, a canalização não depende apenas da qualidade da oferta legal, mas também do aumento do custo operacional para quem atua fora da regulamentação.
Sites espelho desafiam os mecanismos tradicionais de fiscalização
Uma das principais mudanças enfrentadas pelo regulador envolve o crescimento dos chamados sites espelho (mirror sites). Operadores ilegais conseguem copiar integralmente um site bloqueado para um novo domínio, fazendo com que a mesma operação volte ao ar quase imediatamente.
Segundo a autoridade, “os sites espelho costumam ser cópias idênticas dos sites bloqueados, apenas hospedadas em um novo domínio. Dessa forma, a experiência do usuário permanece praticamente inalterada e muitos jogadores sequer percebem que houve uma pequena mudança no endereço do site”.
Para enfrentar esse problema, a Autoridade Dinamarquesa de Jogos atualizou seu acordo de cooperação com a Associação Dinamarquesa da Indústria de Telecomunicações. O novo modelo permite o bloqueio dinâmico de sites espelho sem necessidade de obter uma nova decisão judicial, desde que a Justiça já tenha declarado ilegal o conteúdo do site original.
Segundo o regulador, essa medida reduzirá o tempo durante o qual sites ilegais permanecem acessíveis aos usuários dinamarqueses e tornará o processo de fiscalização mais ágil. As ordens de bloqueio já apresentam resultados concretos.
Após o bloqueio de 178 sites ilegais em junho de 2025, o número de acessos provenientes da Dinamarca a esses domínios caiu aproximadamente 34% nos seis meses seguintes, em comparação com os seis meses anteriores.

Jogos ilegais se espalham por diferentes plataformas
O relatório também aponta uma mudança importante na forma como os jogos de azar ilegais chegam ao público. Hoje, essas atividades já não se limitam a sites independentes.
Segundo o regulador, foi observado “um crescimento na divulgação de atividades ilegais de jogos em grupos fechados de plataformas de comunicação, como Discord, Telegram e outras”.
Além disso, foram identificados aplicativos ilegais, anúncios em mecanismos de busca, conteúdos publicados no YouTube, transmissões na Twitch e campanhas promocionais no Facebook e no Instagram. Por meio de acordos de cooperação com Apple, Google, Meta e Twitch, a autoridade consegue denunciar conteúdos relacionados a jogos ilegais e solicitar sua remoção dessas plataformas.
Em 2025, operadoras licenciadas também relataram casos em que suas marcas foram utilizadas indevidamente em anúncios publicados no Facebook para promover jogos ilegais. Segundo o regulador, um novo procedimento firmado com a Meta deverá acelerar a remoção desse tipo de conteúdo.
Um acordo político conhecido como “Pacote de Jogos 1” (Gambling Package 1) ampliará ainda mais os poderes da autoridade. Além de permitir o bloqueio de sites que promovam jogos ilegais — e não apenas daqueles que oferecem diretamente esse tipo de atividade —, o pacote prevê recursos para uma ferramenta automatizada de monitoramento do marketing digital.
O regulador também busca alcançar o público jovem antes que os operadores ilegais o façam. Em 2025, foram realizadas 100 apresentações em salas de aula, além do registro de uma demanda crescente por ações educativas junto a clubes esportivos.
Segundo o relatório: “Evitamos deliberadamente abordagens moralistas, bem como proibições e campanhas baseadas no medo.”
Para a Dinamarca, a canalização depende de dois pilares fundamentais: manter o mercado regulamentado atrativo e, ao mesmo tempo, tornar o mercado ilegal mais difícil e menos lucrativo de operar. O relatório de 2025 demonstra por que ambos são indispensáveis. Quanto mais rapidamente os operadores ilegais forem interrompidos, menor será o incentivo econômico para continuarem direcionando suas atividades aos jogadores dinamarqueses sem licença.
Roma não foi construída em um dia, mas o seu próximo grande negócio pode acontecer em apenas alguns dias. De 2 a 5 de novembro de 2026, a cidade se tornará o centro global do iGaming com a realização da SiGMA World. O evento reunirá 30 mil participantes, mais de 1.200 patrocinadores e expositores e mais de 550 palestrantes especializados, consolidando-se como uma das maiores conferências da indústria mundial.


