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Especialista aponta mudança estrutural no setor de jogos na Ásia

Sudhanshu Ranjan
Escrito por Sudhanshu Ranjan
Traduzido por Thawanny de Carvalho Rodrigues

Restrições mais rigorosas e mudanças nas prioridades de investimento estão provocando transformações estruturais no setor de resorts integrados no Sul e Sudeste Asiático. Centros regionais como Manila e Phnom Penh vêm sendo impactados por eventos recentes, como a queda na atividade de jogos VIP em Macau. Ao mesmo tempo, reguladores em alguns mercados, incluindo Singapura e Camboja, estão impondo regras mais rígidas sobre as atividades de jogos.

Em entrevista exclusiva à SiGMA News, Jared Valarao, diretor-geral da Lakandula Holdings, oferece uma análise direta sobre o modelo de junkets que por anos definiu o financiamento do setor de jogos na Ásia. Ele também detalha as mudanças macroeconômicas que estão redesenhando os fluxos de capital na região e apresenta um argumento consistente sobre o potencial estratégico ainda subestimado do Sri Lanka.

Governança como novo diferencial competitivo

Segundo Valarao, quando investidores institucionais são questionados sobre o que os impede de entrar nos mercados de jogos na Ásia, a resposta é quase sempre a mesma: complexidade. Estruturas societárias em jurisdições offshore dificultam a identificação dos beneficiários finais, fluxos de caixa são difíceis de rastrear e há exposição a riscos de lavagem de dinheiro que preocupam equipes jurídicas. Durante anos, o setor tratou essas questões como custos de conformidade. Agora, elas se tornaram o principal fator competitivo para a próxima década.

“O movimento decisivo será a convergência entre regimes de AML/KYC e transparência real sobre beneficiários finais na camada de capital. Jurisdições que se anteciparem a isso vão atrair capital institucional; as que não fizerem isso continuarão dependentes da liquidez dos ciclos de junkets, que está estruturalmente em queda”, afirmou.

A mensagem é clara tanto para desenvolvedores quanto para reguladores: boa governança não atrapalha o crescimento — ela é, na verdade, o que o viabiliza.

Ele acrescenta: “A próxima geração de resorts integrados não será financiada como cassinos, mas como infraestrutura, com níveis de transparência comparáveis aos de investimentos soberanos, fluxos de caixa segregados e impactos sociais mensuráveis.”

O posicionamento estratégico do Sri Lanka

Valarao alerta que não faz sentido usar mercados consolidados como Singapura ou Manila como referência para o Sri Lanka. A questão mais relevante, segundo ele, é identificar quais corredores de demanda estão atualmente desatendidos e se o país está posicionado em algum deles. A resposta dele é direta: sim — e com clareza. “Colombo está no cruzamento entre a demanda de saída do Sul da Ásia e os fluxos de riqueza do Oriente Médio, que Phnom Penh não consegue atender e que Singapura acaba excluindo por custo.”

Ele reforça que a comparação com mercados já estabelecidos não é o caminho. O ponto central é entender onde estão as lacunas de demanda e se o Sri Lanka pode ocupá-las — e, nesse aspecto, a resposta é afirmativa.

Em vez de competir por retornos imediatos ou tentar replicar o volume de jogadores VIP de mercados mais maduros, o Sri Lanka deveria, nas palavras de Valarao, “se posicionar como uma jurisdição de rendimento para capital paciente, com menores múltiplos de entrada, horizontes de investimento mais longos e uma base turística que transforme a receita de jogos em um vetor de expansão de margem — e não no principal fundamento do negócio.”

O declínio estrutural do modelo de junkets

Durante décadas, os volumes VIP impulsionados por junkets foram centrais para as receitas de jogos em mercados como Filipinas, Malásia e Camboja. No entanto, Valarao é direto: esse modelo está em declínio estrutural. “A compressão em Macau se espalhou por Manila e Phnom Penh, e essa memória de mercado já está precificada em qualquer análise séria de investimento.”

Para projetos de resorts integrados voltados ao Sri Lanka, ele estima uma composição de receita mais realista baseada em público premium de massa e turismo internacional, com os jogos representando cerca de 30% a 40% do EBITDA — bem abaixo dos 70% observados anteriormente.

Repensando incentivos e estrutura regulatória

Valarao defende uma revisão no desenho de incentivos. Em vez de benefícios fiscais imediatos, ele sugere um modelo mais estratégico, no qual vantagens sejam conquistadas ao longo do tempo e vinculadas a compromissos concretos, como manutenção de capital investido por dez anos, contratação de talentos locais em cargos de liderança e cumprimento de metas mensuráveis em áreas como saúde e educação.

A proposta é incorporar mecanismos de controle diretamente na estrutura de incentivos, tornando o sistema menos suscetível a abusos sem depender de escândalos para acionar respostas regulatórias.

“As jurisdições que atraem investimento estrangeiro de longo prazo não são as mais baratas, mas aquelas cujas regras demonstram que o regulador é tão paciente quanto o investidor”

– Jared Valarao, Diretor-gerente da Lakandula Holdings.

Onde o capital deve se concentrar

Na visão de Valarao, o mapa estratégico do Sri Lanka se apoia em dois eixos principais. O primeiro é o Colombo Port City, descrito como o ponto central natural: um projeto planejado, com infraestrutura preparada e desenhado para desenvolvimento de uso misto em larga escala. Trata-se de uma área construída sobre terreno recuperado ao lado do centro financeiro de Colombo, considerada uma das oportunidades mais alinhadas ao turismo com jogos no Sul da Ásia, fora de Singapura.

O segundo eixo é a faixa costeira ao sul, entre Galle e Hambantota, uma aposta menos convencional. Projetos de infraestrutura financiados por capital chinês já resolveram questões de conectividade, mas a demanda ainda não acompanhou essa expansão.

No caso do Sri Lanka, o país não deve ser visto como uma versão mais barata de Manila nem como uma réplica de Singapura. Trata-se de uma proposta de valor própria, baseada em retorno, localização estratégica e na decisão deliberada de posicionar os jogos como complemento — e não como foco central. Resta saber se reguladores e formuladores de políticas conseguirão avançar com rapidez suficiente para capturar essa oportunidade. Como alerta Valarao, o mercado não espera: os fluxos de demanda continuam se movimentando independentemente do ritmo regulatório do país.

A principal potência regional da Ásia desembarca em Manila entre 31 de maio e 3 de junho de 2026. Com o apoio da PAGCOR e a presença de 16 mil participantes, a SiGMA Asia oferece dois níveis de influência que ajudam a moldar o setor. Para quem leva a região a sério, este é o lugar certo.

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