A atenção do mercado europeu está voltada para a Finlândia à medida que o país avança do debate político para a fase prática da reforma do setor de jogos. A partir de 1º de julho de 2027, um mercado que por décadas esteve sob o monopólio da Veikkaus passará a operar sob um modelo competitivo de licenciamento. As operadoras ainda têm tempo para se preparar. Nesse contexto, a SiGMA News conversou com Jaakko Soininen, diretor-geral da Finnplay, sobre os riscos, expectativas e desafios que a Finlândia enfrentará durante essa transição.
O que está acontecendo durante o período de transição
No início de abril de 2026, apenas um mês após a abertura do período de solicitações, a Finlândia já havia recebido 24 pedidos de licença, sinalizando um forte interesse do mercado. Ao mesmo tempo, o monopólio da Veikkaus permanecerá em vigor até o final de junho de 2027, o que significa que novos operadores ainda não podem oferecer seus serviços aos jogadores finlandeses.
Segundo Soininen, a transição já alterou o perfil das discussões entre operadores. Há um ano, as conversas giravam em torno dos prazos e da dúvida sobre a real disposição da Finlândia em abandonar o modelo monopolista. Agora, o foco está nos requisitos regulatórios, no jogo responsável, nos sistemas de relatórios, na localização de produtos e na integração de soluções tecnológicas.
“Os operadores que levam a Finlândia a sério já estão trabalhando ativamente em seus preparativos.”
Na visão de Soininen, a preparação não deve se limitar ao cumprimento de exigências técnicas. As empresas também precisam analisar fluxos de cadastro, usabilidade das plataformas, tom da comunicação e estratégias de localização para o público finlandês.
O que os operadores estão fazendo neste momento
A nova legislação abre espaço para a concorrência online em apostas esportivas, caça-níqueis online, cassinos online e bingo com dinheiro real. Loterias, raspadinhas, cassinos físicos e máquinas caça-níqueis presenciais continuarão sob os direitos exclusivos da Veikkaus. O Ministério do Interior da Finlândia destacou que a reforma tem como objetivo reduzir os danos relacionados ao jogo, direcionando os usuários para serviços regulamentados pela legislação finlandesa.
Soininen observa que os operadores já estão construindo as bases jurídicas, técnicas e de produto para ingressar no mercado. A rapidez na implementação de sistemas de relatórios, configurações de pagamento, verificação de identidade e ferramentas de jogo responsável será tão importante quanto a obtenção da licença.
Como direcionar os jogadores para o mercado regulamentado
A reforma busca atrair o maior número possível de jogadores para o ambiente regulado. Antes da mudança, parte dos usuários finlandeses migrava para operadores offshore que atuavam fora da supervisão das autoridades locais. A SiGMA News já destacou que o modelo de monopólio vinha perdendo eficácia.
Soininen reconhece que o bloqueio de sites e pagamentos pode contribuir para o lançamento do mercado, incentivar operadores a buscar licenças e fortalecer a proteção dos consumidores. No entanto, ele ressalta que restrições, por si só, não resolvem o problema, já que operadores ilegais continuarão procurando formas de alcançar os jogadores.
“A canalização não se resume a bloquear o mercado offshore; trata-se também de tornar o mercado licenciado a melhor opção por meio da experiência do usuário e da educação dos jogadores.”
A escolha do consumidor é simples. Se um produto licenciado for seguro, mas significativamente mais lento ou menos adaptado às necessidades do usuário do que uma alternativa offshore, parte dos jogadores continuará fora do ambiente regulado.
Por que a confiança será decisiva
A entrada no mercado dependerá de diversos fatores práticos. Além da licença, as empresas precisarão cumprir medidas de proteção ao jogador, regras de publicidade e padrões de confiabilidade tecnológica. O novo modelo exigirá salvaguardas robustas, incluindo auditorias independentes, ferramentas de autoexclusão e rígidos controles de prevenção à lavagem de dinheiro.
Soininen acredita que o sucesso da reforma dependerá da capacidade do mercado legal de ser mais claro, conveniente e confiável para os jogadores do que as plataformas offshore não licenciadas.
“Em um mercado como o da Finlândia, a confiança será extremamente importante.”
Para Soininen, confiança não é um conceito abstrato, mas um diferencial competitivo concreto. Os jogadores precisam encontrar um processo de cadastro claro, plataformas estáveis, regras transparentes e pagamentos rápidos e eficientes. Em conjunto, esses elementos devem transmitir a sensação de que o produto foi desenvolvido especificamente para os consumidores finlandeses.
Como deve ser a jornada do usuário
Duas regulamentações técnicas entrarão em vigor em janeiro de 2027. A primeira exige que os licenciados protejam seus sistemas contra vulnerabilidades e garantam a segurança dos dados pessoais dos jogadores. O cumprimento dessas exigências será verificado por meio de uma auditoria de segurança abrangente, obrigatória a cada dois anos. A segunda regulamentação trata dos geradores de números aleatórios (RNG). Cada componente de software responsável por produzir resultados aleatórios deverá passar por uma verificação independente.
Soininen afirma que essas medidas de proteção precisam ser incorporadas ao produto desde o início. Os jogadores não devem ser obrigados a gastar tempo excessivo com processos de validação, caso contrário os operadores correm o risco de perdê-los.
“Se o produto licenciado parecer significativamente mais lento ou mais difícil de usar do que as alternativas offshore, isso se torna um risco para a canalização.”
Ele também ressalta que a conveniência não deve prevalecer sobre a proteção do jogador. O objetivo é projetar mecanismos de segurança que preservem uma experiência fluida. Caso contrário, o mercado regulamentado poderá acabar empurrando usuários para operadores que não impõem qualquer tipo de barreira ou controle.
Fornecedores de software também estarão sujeitos à regulamentação
O modelo finlandês vai além das operadoras. De acordo com um comunicado do Ministério do Interior, o licenciamento de fornecedores de software para jogos terá início em 1º de julho de 2027. A partir de 1º de julho de 2028, os operadores poderão utilizar apenas soluções devidamente licenciadas.
Soininen considera esse um dos elementos centrais da reforma. Ele cita a experiência da Finnplay nos Países Baixos, onde a empresa frequentemente reúne operadores em sua plataforma para discutir desafios regulatórios comuns.

“Os fornecedores podem apoiar a integridade do mercado ajudando operadores, reguladores e outras partes interessadas a construir um sistema que funcione na prática, e não apenas no papel.”
Nesse modelo, o fornecedor passa a integrar a infraestrutura de confiança do mercado por meio de relatórios transparentes, dados verificáveis e ferramentas de jogo responsável, fortalecendo a relação entre operadores e reguladores.
O que precisa acontecer para que a reforma seja bem-sucedida
A Finlândia permitirá publicidade relacionada aos jogos, mas com restrições. Campanhas direcionadas a menores de idade serão proibidas. O telemarketing direto também não será permitido. A promoção de jogos por influenciadores digitais será vetada, e determinadas formas de publicidade externa terão limitações.
Segundo Soininen, isso muda significativamente a dinâmica competitiva do mercado. Se a aquisição agressiva de clientes estiver limitada, os operadores não poderão depender apenas de bônus e campanhas de curto prazo. A confiança na marca, a relevância local e a qualidade do produto ganharão ainda mais importância.
Na sua avaliação, os operadores mais bem-sucedidos serão aqueles capazes de construir reconhecimento de marca, conquistar a confiança do público por meio de conteúdos claros e oferecer uma experiência simples e eficiente. Deficiências na localização de produtos tornam-se mais evidentes em mercados onde não é possível compensá-las por meio de publicidade agressiva.
Equilibrando proteção e eficiência
A Finlândia está implementando um sistema competitivo de licenciamento mais tarde do que muitos mercados europeus, o que lhe oferece a oportunidade de aprender com erros cometidos por países vizinhos. A reforma adota um modelo híbrido. Alguns produtos continuarão sob o controle da Veikkaus, enquanto os segmentos online serão abertos à concorrência. Modelos semelhantes já existem na Dinamarca e na Suécia. Para Soininen, a principal lição desses mercados é o equilíbrio.
“A regulamentação precisa ser suficientemente rigorosa para proteger os jogadores, mas também prática o bastante para apoiar a canalização.”
Os requisitos devem ser robustos o suficiente para garantir a proteção dos consumidores, mas sem dificultar a migração para o ambiente licenciado. Soininen acrescenta que orientações claras por parte do regulador serão fundamentais, já que incertezas tendem a gerar atrasos e interpretações inconsistentes das regras.
Na visão dele, o primeiro teste da reforma finlandesa já está em andamento. Operadores estão preparando pedidos de licença, fornecedores desenvolvem soluções tecnológicas e o regulador define normas que precisam entregar segurança, transparência e competitividade. O verdadeiro teste começará quando os jogadores finlandeses compararem um produto licenciado com uma alternativa não licenciada.
Este artigo foi publicado originalmente na página russa da SiGMA News em 8 de junho de 2026.
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