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O iGaming enfrenta uma crise de engajamento?

Jillian Dingwall
Escrito por Jillian Dingwall
Traduzido por Thawanny de Carvalho Rodrigues

Quase metade das pessoas que trabalham na indústria de iGaming não aposta por conta própria, mas quase três quartos afirmam sentir orgulho de atuar no setor.

Esse foi o dado mais chamativo de uma série recente de enquetes realizadas no LinkedIn por Glenn Debattista, COO da BetStarters e especialista do setor, cujo perfil reúne uma das maiores audiências de iGaming em Malta.

À primeira vista, os números parecem contraditórios. Na prática, apontam para algo mais estrutural. O iGaming deixou de ser movido principalmente por entusiastas e entrou de vez em sua fase de profissionalização.

Para um número cada vez maior de profissionais, trabalhar no iGaming se assemelha mais a ingressar em uma empresa de tecnologia do que em um movimento cultural. A identidade alternativa que antes definia o setor foi gradualmente substituída por escala, compliance e trajetórias profissionais bem estruturadas.

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Dados originais: enquete no LinkedIn
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Dados originais: enquete no LinkedIn

Considerados em conjunto, os resultados revelam uma força de trabalho que, em geral, se orgulha da indústria, mas permanece amplamente desconectada do consumo do seu principal produto.

Na maioria das indústrias de entretenimento, essa separação seria vista como um problema. Desenvolvedores de games costumam jogar videogame. Funcionários de plataformas de streaming normalmente assistem a séries e filmes. Profissionais de marketing esportivo geralmente são fãs antes de se tornarem executivos.

No iGaming, orgulho profissional e participação como usuário parecem seguir caminhos distintos. É possível construir a engrenagem sem querer fazer parte dela, porque a satisfação vem de realizar bem o trabalho — e não necessariamente de usar o produto.

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Glenn Debattista, COO da BetStarters

Se isso é relevante ou não depende da função exercida, afirma Debattista.

“Alguém que trabalha em RH ou na área administrativa não precisa, de fato, apostar para entender o usuário. Por outro lado, quem atua no produto ou em cargos que exigem compreender a mentalidade do consumidor se beneficiaria ao se colocar no lugar dele. Não é uma exigência, mas certamente ajuda.”

Relembrando sua experiência no trading de apostas esportivas, ele acrescenta:

“Quando eu trabalhava no departamento de trading de sportsbooks, apostar em esportes me ajudava a entender certos padrões e a antecipar determinados tipos de apostas. E os melhores traders dessas empresas eram justamente os que também apostavam.”

Educados para deixar de ser clientes?

Os motivos que levam as pessoas a não apostar são tão interessantes quanto o comportamento em si. Segundo a enquete, 33% afirmaram evitar o jogo porque conhecem bem demais a matemática por trás dele. Outros 31% disseram que encaram isso apenas como trabalho. Apenas uma minoria citou razões pessoais ou éticas.

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Original data: LinkedIn poll

À primeira vista, parece que, quando se entende como os números funcionam, o encanto desaparece. Ao enxergar margens, probabilidades e a estrutura do sistema, o jogo deixa de ser misterioso e passa a ser visto como um modelo de negócio.

Mas o LinkedIn continua sendo o LinkedIn.

Dizer que “conhece demais a matemática” é uma resposta mais segura. Soa racional e evita parecer crítico ou desinteressado. Admitir que o jogo simplesmente não atrai, ou que gera desconforto, é uma declaração diferente quando toda a sua carreira está dentro da indústria.

Isso não significa que a explicação matemática seja falsa. Para muitas pessoas, compreender a estrutura realmente muda a forma como enxergam o jogo. Mas provavelmente essa não é a história completa.

Independentemente da combinação de motivos, o resultado é claro: uma parcela significativa da força de trabalho opta por não consumir o produto que ajuda a construir — um sinal importante de onde o setor se encontra hoje.

Carreira, não vocação

Os dados sobre tempo de atuação reforçam essa transformação. Mais de 85% dos entrevistados trabalham no iGaming há mais de três anos, e mais de um terço está no setor há mais de uma década.

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Dados originais: enquete no LinkedIn

Isso não é uma força de trabalho transitória experimentando um setor novo. Trata-se de um verdadeiro ecossistema de carreiras.

Quase 34% afirmaram ter entrado na indústria por interesse genuíno no setor em si. Progressão profissional e remuneração foram motivações ainda mais fortes, enquanto a mudança de país teve um peso relativamente pequeno.

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Dados originais: enquete no LinkedIn

Ainda assim, 34% não é um número irrelevante. Em uma indústria em que quase metade dos profissionais não consome o produto, o fato de um em cada três ter sido atraído por interesse mostra que a curiosidade ainda conta.

Esse interesse, porém, não significa necessariamente paixão pelo jogo. Pode refletir fascínio pela mecânica do trading, pela complexidade regulatória, pela estratégia de produto ou pela dimensão do ecossistema como um todo.

Questionado sobre se o setor se tornou mais profissional e menos movido por paixão, Debattista afirma que houve uma evolução.

“No passado, quando entrei na indústria, os salários eram muito mais baixos e trabalhar com iGaming era algo empolgante. Havia um elemento de curiosidade em comparação com carreiras mais tradicionais, especialmente para quem acompanhava esportes ou jogava cassino. Hoje, até pessoas que não acompanham esportes nem jogam querem entrar no setor, principalmente porque os salários são altos e existe a possibilidade de construir uma boa carreira.”

Salário acima da missão

O salário é o principal fator que influencia a permanência no setor, seguido por flexibilidade. O senso de propósito aparece mais abaixo na lista.

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Dados originais: enquete no LinkedIn

Isso não significa que as pessoas sejam cínicas em relação ao próprio trabalho. Reflete o fato de que a indústria hoje oferece empregos estáveis, bem remunerados e com caminhos claros de progressão. À medida que o iGaming cresceu, se regulou e se consolidou, deixou de ser uma fronteira e passou a integrar o núcleo da economia digital. Nesse ambiente, os profissionais pensam mais em carreiras de longo prazo do que em fazer parte de um movimento.

Debattista afirma perceber essa mudança claramente entre os mais jovens.

“A maioria dos jovens com quem trabalho nunca fez uma aposta sequer ou tentou entender como o jogo funciona”, observa.

Para muitos, o jogo não é uma paixão pessoal. É apenas o setor onde trabalham.

iGaming como ecossistema econômico

O iGaming, especialmente em Malta, tornou-se uma espécie de ecossistema econômico. As pessoas não entram porque amam jogar. Entram porque encontram empregos estáveis, bem pagos e em inglês, nas áreas de tecnologia, marketing, produto, compliance e conteúdo. Isso cria três grupos psicológicos distintos dentro da indústria:

1. Os Crentes
São a minoria. Gostam genuinamente de apostas, probabilidade, risco e do produto em si. Costumam ser fundadores, traders, designers de produto ou pioneiros do setor. Sua motivação vem do interesse intrínseco.

2. Os Artesãos
É o maior grupo. Não se importam com o jogo em si, mas se importam profundamente com o que fazem. Redatores que amam escrever. Designers que amam criar. Engenheiros que gostam de resolver problemas técnicos. O produto é secundário. A satisfação vem da excelência no trabalho.

3. Os Pragmatistas
É o grupo silencioso, raramente mencionado abertamente. Estão ali porque o setor paga bem, oferece estabilidade e se encaixa em seu estilo de vida. Não amam o produto, apenas o toleram. Sua motivação é segurança, autonomia e qualidade de vida.

Da cultura à infraestrutura

A tensão presente nessas enquetes só parece contraditória se partirmos do pressuposto de que o iGaming ainda deveria se parecer com a subcultura que foi no passado.

O que começou como uma fronteira movida pela curiosidade tornou-se um negócio global e regulamentado, que emprega milhares de profissionais que talvez nunca façam uma aposta. Essa transformação muda o perfil de quem o setor atrai. Os primeiros anos foram marcados por experimentação e entusiasmo; hoje, o iGaming oferece carreiras estáveis, funções bem definidas e progressão de longo prazo.

Quase metade da força de trabalho pode não apostar, mas a maioria se orgulha de atuar no setor — e muitos construíram carreiras sólidas dentro dele. Isso é menos uma contradição e mais um sinal de quão longe a indústria chegou.

Hoje, a questão não é se os profissionais amam apostar, mas se são capazes de construir e gerir uma indústria que se tornou maior do que o hobby que um dia a definiu.

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